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As virtudes e vícios humanos

Por: Lívia Couto Na complexidade da jornada humana, as virtudes e vícios entrelaçam-se como fios, formando uma intricada trama que define...

Por: Lívia Couto    Na complexidade da jornada humana, as virtudes e vícios entrelaçam-se como fios, formando uma intricada trama que define nossa existência e molda nosso desenvolvimento. Esta tapeçaria revela nuances das características humanas que influenciam nosso caráter e interações sociais, destacando o papel fundamental da reforma íntima em nosso processo evolutivo. Conforme expressa Emmanuel (2019), a virtude é uma conquista sublime e duradoura do Espírito ao longo das estradas da vida, incorporada eternamente aos seus valores, fruto do trabalho e esforço pessoal.    Desta forma, as virtudes representam todos os comportamentos habituais que conduzem o ser humano na trajetória do bem e da evolução espiritual. A filosofia das virtudes humanas é um campo de estudo que se debruça sobre a natureza das características positivas que moldam o caráter e a conduta das pessoas. Essa abordagem filosófica busca compreender não apenas o que é moralmente bom, mas também como as virtudes podem ser cultivadas e integradas à vida diária.     A reflexão sobre virtudes tem raízes nos pensadores da Antiguidade, entre eles Aristóteles, cuja obra Ética a Nicômaco  representou um marco na exploração dessas qualidades. Nessa obra, ele aprofundou a discussão sobre o caráter moral e a conduta ética, explorando as virtudes como elementos essenciais para a busca da excelência humana. Ao examinar aspectos como coragem, justiça, temperança e sabedoria, Aristóteles estabeleceu um guia duradouro que transcendeu os séculos, contribuindo para o entendimento contínuo das virtudes e seu papel na construção de uma vida ética e plena.    Segundo o filósofo:  “A virtude é, portanto, uma disposição adquirida voluntariamente, que consiste, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Digamos ainda o seguinte: enquanto, nas paixões e nas ações, o erro consiste ora em manter-se aquém, ora em ir além do que é conveniente, a virtude encontra e adota uma justa medida. Por isso, embora a virtude, segundo sua essência e segundo a razão que fixa sua natureza, consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado”  (ARISTÓTELES, 1973, p. 06).    Assim, desde a Grécia Antiga, se discutia que as virtudes são hábitos adquiridos pela prática constante de comportamentos éticos. Aristóteles refletiu sobre a busca pelo equilíbrio, em que as virtudes residem entre extremos, por exemplo, a coragem encontra-se no ponto intermediário entre a covardia e a temeridade, sugerindo que a excelência moral é encontrada na moderação.    Conforme a resposta da pergunta 893, de O Livro dos Espíritos , “ Qual a mais meritória de todas as virtudes ?” (KARDEC, 2022, p. 320), percebemos que:  “Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade”  (KARDEC, 2022, p. 320).    Neste contexto, destaca-se a importância da caridade como a expressão máxima da compaixão. Ela emerge como uma força transformadora que fortalece os laços humanos, elevando as virtudes a um patamar mais profundo de significado e conectando-nos uns aos outros em nossa jornada compartilhada. Assim, a honestidade, por exemplo, pode ser comparada a uma estrela-guia semelhante a um farol que irradia luz nos cantos mais escuros da alma, revelando verdades cruas que, por vezes, relutamos em encarar. A humildade e a tolerância, assemelhando-se a brisas suaves que acariciam a paisagem da existência, e desempenham um papel vital ao suavizar as arestas da convivência, permitindo a aceitação das peculiaridades que nos tornam únicos.    A maioria expressiva dos Espíritos que vivenciam a encarnação na Terra traz consigo tanto virtudes quanto vícios. Estes podem ser compreendidos como manchas na essência da alma, manifestando-se quando alguém adota hábitos ou padrões de comportamento censuráveis, prejudicando a si mesmo ou aos outros. O egoísmo, o orgulho, a inveja, a gula e a preguiça são imperfeições presentes naqueles que carregam consigo vícios. Estes surgem devido à intensificação de uma necessidade ou sentimento, em outras palavras, resultam do abuso do instinto de conservação e se apresentam como empecilho do processo evolutivo.    Os vícios que afetam negativamente nossas vidas, podem ser divididos em duas categorias: os materiais e os morais. Os primeiros, como alcoolismo, tabagismo, excessos alimentares e uso de drogas ilegais, frequentemente acarretam sérios problemas sociais. Por outro lado, os vícios morais também são motivo de preocupação, englobando a constante mentira para nós mesmos e para os outros, conhecida como falsidade; a tendência à lamentação e revolta contra a vida, descontando em tudo e todos ao nosso redor; a prática do orgulho, ao se considerar infalível como forma de compensar a profunda insegurança interior; a compulsão por gastos desnecessários, procrastinando decisões cruciais em nossas vidas; a inclinação para criticar e julgar negativamente as pessoas para alimentar a sensação de superioridade em relação a elas, entre outros comportamentos prejudiciais, podem ser citados.    Segundo Kardec, em resposta à pergunta 913, do Livro dos Espíritos - “ Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical ?” (KARDEC, 2022, p. 325), vemos que: (...) “o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpa-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades" (KARDEC, 2022, p. 325-326).     Logo, o egoísmo é comparado a um nevoeiro denso que obscurece a visão do coração, limitando sua capacidade de enxergar além do eu. Segundo Kardec (2022), ele é apontado como a fonte de todos os vícios, resultando na excessiva valorização dos interesses individuais em detrimento dos coletivos. Essa atitude, se não controlada, tem impactos adversos tanto em nível pessoal quanto social.    A nível pessoal, o egoísmo pode causar desconexão emocional com os outros, prejudicando relacionamentos e dificultando a construção de vínculos significativos. A ênfase excessiva nos próprios desejos muitas vezes leva à falta de empatia e compreensão em relação às experiências alheias, resultando em isolamento emocional e perda de oportunidades para o crescimento pessoal por meio das interações interpessoais. No âmbito social, o egoísmo contribui para a desigualdade e a injustiça, pois as ações motivadas unicamente pelo interesse próprio desequilibrando os sistemas sociais, favorecendo alguns em detrimento de muitos. Isso gera tensões, conflitos e prejudica o bem-estar coletivo.    Nessa dança entre virtudes e vícios, a Doutrina Espírita convida cada alma a explorar as paisagens complexas de sua jornada espiritual. As virtudes, como pétalas delicadas, perfumam o caminho, enquanto os vícios, como sombras dançantes, desafiam nossa busca pela verdadeira essência. Em um convite à introspecção, o Espiritismo nos chama a moldar nossa jornada, escolhendo virtudes que iluminem nossos passos e reconhecendo os vícios que, quando acolhidos, obscurecem a luz interior e impedem nosso processo evolutivo.    Como nos demonstra Emmanuel:  “Virtude, quanto acontece à pedra preciosa lapidada, não surgirá no mostruário de nossas realizações sem burilamento e sem sacrifício. Se desejamos construí-la, em nossos corações, é imprescindível não nos acovardemos diante das oportunidades que o mundo nos oferece. Sem resistência deliberada ao desespero, não entesouraremos a paciência. Sem controle do temperamento impulsivo, não alcançaremos a serenidade. Sem vitória sobre os répteis da dúvida ou da suspeita, em nosso campo íntimo, não edificaremos a fé. Sem renúncia não experimentaremos o amor puro. Sem gentileza não asilaremos a bondade. Sem o silêncio bem vivido, não atingiremos a harmonia mental” (...) (XAVIER, 2014, p. 51).    Compreendemos o que caracteriza virtude e vício, mas como lidar com os desafios cotidianos? É fato que possuímos recursos valiosos para nossa reforma íntima, como, por exemplo, a razão, a inteligência, o livre-arbítrio e, associadas a esses elementos, a vontade e a fé raciocinada, que consistem na compreensão do nosso dever moral em nossa jornada evolutiva. Assim, Deus determinou limites para a satisfação de nossas necessidades; por meio da saciedade, somos conscientizados desses limites, e ultrapassá-los é uma escolha deliberada do ser humano. As possíveis enfermidades decorrentes dessa transgressão têm origem na imprudência humana, não na vontade divina. A cada pessoa é concedido um corpo físico que deve ser cuidado para preservar não apenas sua saúde física, mas também a mental e espiritual.    Neste sentido, a manutenção do equilíbrio entre as necessidades do corpo e a prudência na busca da satisfação dessas necessidades são cruciais para assegurar uma existência saudável e harmônica. Ao compreender e respeitar os limites estabelecidos, o ser humano não apenas promove seu bem-estar físico e mental, mas também expressa um ato de gratidão e responsabilidade em relação ao presente da reencarnação que lhe foi confiado.    Com base em tudo que foi dito, o Espiritismo oferece uma abordagem profunda sobre as virtudes e vícios humanos, destacando a importância das escolhas individuais na jornada espiritual. As virtudes, como o amor, a humildade, e a caridade são vistas como elementos essenciais para o desenvolvimento espiritual; enquanto os vícios, como o egoísmo e a ganância, são considerados obstáculos a serem superados. Em última análise, a Doutrina Espírita convida cada indivíduo a refletir sobre suas ações, buscando, através da reforma íntima, a transformação interior em direção ao crescimento espiritual.    Conforme apontado pelos Benfeitores Anônimos, a virtude não está completamente ausente da Terra, ao contrário do que alguns pessimistas possam pensar. Certamente, o mal ainda prevalece, mas ao buscar nas sombras, percebemos que “ sob as ervas daninhas, há mais violetas ” (KARDEC, 2004, p. 416), isto é, um número maior de almas boas do que imaginamos. O fato de surgirem a intervalos tão espaçados ocorre porque a verdadeira virtude não busca destaque, pois é humilde. Satisfeita com as alegrias do coração e a aprovação da consciência, ela não se exibe, enquanto o vício se mostra de forma ostensiva, em plena luz, fazendo barulho por seu orgulho. Dessa forma, eles nos apontam que “ o orgulho e a humildade são os dois polos do coração humano: um atrai todo o bem; o outro, todo o mal; um tem calma; o outro, tempestade; a consciência é a bússola que indica a rota conducente a cada um deles ” (KARDEC, 2004, p. 417).    ==========  Referências:  1. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco . Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1973.  2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos,  tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita, 2022.  3. KARDEC, Allan. Revista Espírita : Jornal de Estudos Psicológicos. Trad. Evandro Bezerra. Brasília: FEB, 2004.  4. SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais . 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.   5. XAVIER, Francisco C. Correio Fraterno.  Por Diversos Espíritos. Brasília: FEB, 2014.   6. XAVIER, F. C. O Consolador.  Pelo Espírito Emmanuel. 7. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2019.

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