Existe fé inabalável?



Por: Marisa Fonte


“Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.” - Allan Kardec


Derivada do latim fides, a palavra fé significa crença. Ter fé é acreditar com convicção em algo sem ter provas materiais para crer. A fé pode ser cega ou raciocinada. A fé cega aceita sem qualquer verificação aquilo que lhe é exposto, e em excesso pode gerar fanatismo. Já a fé raciocinada, examina o objeto da crença para verificar se aquilo que se diz é verdade ou não, e tem como base o estudo sério do assunto.

A Doutrina Espírita possui três aspectos: Filosofia, Ciência e Religião, e isso confere a ela autoridade para falar em fé raciocinada.

A parte filosófica da doutrina interpreta a vida e traz uma concepção própria do mundo, estudando os problemas da origem e o destino dos seres, afirmando, também que existe uma inteligência suprema que é causa primeira de todas as coisas. O Espiritismo explica de forma coerente o motivo das dores, dos sofrimentos, da desigualdade entre os seres, e nos convida a refletir sobre a lei de causa e efeito.

A parte científica do Espiritismo estuda os fenômenos mediúnicos demonstrando que para tudo há uma explicação científica. Kardec afirma: o Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos espíritos, e de suas relações com o mundo corpóreo. Segundo o próprio Allan Kardec afirma no preâmbulo do livro O que é o Espiritismo, “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.”

Finalmente, o Espiritismo compreende também a religião, uma vez que a finalidade da doutrina é a nossa transformação moral, por meio dos ensinamentos de Jesus, que se seguidos na vida cotidiana fazem com que tenhamos nesses ensinamentos uma bússola que nos leva ao nosso destino final que é o amor entre as criaturas, ao caminharmos do lado do Mestre querido pelas estradas do perdão, da caridade e da fé, dentre outras coisas.

Portanto, o tripé no qual a doutrina espírita se apoia nos traz a segurança da fé raciocinada, fazendo com que possamos compreender melhor que a razão e o sentimento precisam estar juntos para construir uma crença com base no conhecimento, pois é sobre ele que a fé deve estar estabelecida, uma vez que a fé construída sobre alicerces sólidos torna-se sólida.


Existe fé inabalável?

Quando falamos em fé é comum que as pessoas digam que têm fé. No entanto, basta que algo de diferente aconteça e que venha de algum modo testar a sua fé, para elas demonstrem que a sua fé não é tão grande assim. Talvez nós ainda não estejamos totalmente preparados para vivenciar a fé da forma como deveríamos para que pudéssemos enfrentar com mais tranquilidade os percalços do nosso dia a dia. É como se estivéssemos em uma embarcação, no meio do oceano, e tivéssemos conosco o melhor capitão do mundo, com poderes de controlar as águas e as tempestades, mas ao primeiro solavanco um pouco mais forte, sentindo o desconforto do tranco, já deixássemos de confiar no nosso competente capitão, e passássemos a nos sobressaltar, sem saber ao certo se vale mesmo a pena confiar em quem está nos dirigindo.

Muitos acham que por terem fé estão isentos dos solavancos da vida, e pensam que a fé torna-nos de algum modo imunes a qualquer contratempo e a qualquer adversidade, o que não é real. A pessoa de pouca fé ou que não compreendeu com profundidade que a frase tudo passa não é somente uma frase consoladora, mas sim uma grande verdade, sofrerá quando tais situações adversas se fizerem presentes na sua vida, e a sua fé, construída sobre a areia, desmoronará ao primeiro contato com as ondas da descrença e da insegurança na sua própria fé.

A função da fé é muito mais profunda do que parece. A função da fé não é para resolver os problemas materiais, é para inspirar-nos a resolvê-los. Não é para retirar o fardo dos nossos ombros – fardo esse que nós próprios colocamos – é para dar-nos resistência para conduzi-lo. A função da fé e alegrar-nos nos momentos em que as dificuldades nos desafiam e dar-nos paciência nos momentos em que os problemas se multiplicam. Divaldo Pereira Franco


Quero compartilhar com você uma história sobre fé. Infelizmente o autor desse texto é desconhecido.

“Depois de preparar-se por longos anos, um alpinista que desejava superar mais e mais desafios, resolveu escalar o pico mais alto da América do Sul, o Aconcágua. Ele queria ter a glória da façanha só para si, por isso decidiu fazer a escalada totalmente sozinho.

No dia marcado lá estava ele ao pé da Cordilheira dos Andes, onde iniciaria a difícil subida. No entanto, ele não contava com a neblina que dificultou a escalada. Como ele não havia se preparado para acampar, foi subindo, com a intenção de alcançar o topo. Foi ficando cada vez mais tarde até que escureceu completamente. Não se via absolutamente nada. Não havia lua nem estrelas, só a escuridão.

Quando o alpinista estava há apenas cem metros do topo, pisou numa pedra falsa, escorregou e caiu em uma velocidade vertiginosa, sem enxergar nada à sua volta. Na mais completa escuridão, ele sentia uma terrível sensação de estar sendo sugado pela força da gravidade.

Continuou caindo, caindo, até que sentiu um puxão forte que quase o partiu pela metade. Como todo alpinista experiente, ele havia cravado estacas de segurança com grampos, e amarrado uma corda comprida na cintura. Naqueles momentos de silêncio, suspenso no ar, em completa escuridão, pensou em Deus e resolveu lhe pedir ajuda.

– Meu Deus, me ajude!

De repente, ele ouviu uma voz que parecia lhe falar nas profundezas da alma.

– O que quer de Mim, meu filho?

– Salve-me, por favor!

E a voz insistiu:

– Você acredita mesmo que Eu possa salvá-lo?

– Eu tenho certeza, meu Deus. Falou o alpinista, desesperado.

– Então, corte a corda que o mantém pendurado, recomendou a voz.

O homem ficou por um momento em silêncio e depois se agarrou à corda com todas as suas forças, sem coragem para cortá-la.

No dia seguinte, o alpinista foi encontrado morto, congelado, agarrado com as duas mãos na corda que o mantinha suspenso a apenas dois metros do chão.”


Gosto bastante dessa história, que tenho contado ao longo dos anos, pois ela ilustra muito bem a questão da fé. O alpinista da nossa história não podia ver nada devido à escuridão, e por isso ficou segurando a corda sem coragem suficiente para soltá-la. Se ele pudesse ver, certamente teria cortado a corda, pois perceberia que estava bem próximo do chão. Pois bem, o conhecimento, que mencionamos acima, é a luz que ilumina a fé. A nossa fé vacila e se abala quando não temos a certeza de que aquilo no que acreditamos é real. Portanto, a fé precisa ser alicerçada pelo conhecimento e pela razão, uma vez que analisando as diversas situações que se apresentam diante de nós podemos compreender de maneira racional qual é o tipo de acontecimento que está presente naquele momento e como ele pode ser contornado ou solucionado. E, diante de fatos sem solução, continuamos com fé na justiça, na bondade e no acolhimento proporcionados pelos ensinamentos que comprovam que nenhuma ovelha será abandonada, e que, portanto, ninguém está sozinho ou abandonado à própria sorte dentro do imenso universo.

A fé remove montanhas, mas não montanhas de terra ou de areia. As montanhas são os desafios que estão presentes na nossa vida o tempo todo, desde pequenos acontecimentos a grandes tragédias, mas que podem ser superados com a presença sempre bem-vinda da fé. Podemos concluir, portanto, que fé inabalável, é aquela que está ancorada no conhecimento e na análise racional que traz luz aos fatos e nos dá segurança para prosseguir com segurança na grande jornada da vida.




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